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Pato Donald

Luis Fernando Verissimo

Casal preparando-se para sair. Ela uns 40 e poucos anos, ele 50.

Ela pede:

- Me fecha atrás?

Ele:

- Ahn?

- O vestido, Sergio. Fecha o vestido.

- Ah.

flor

Ele tenta fechar o vestido dela atrás mas não consegue. Em vinte-cinco anos de vida conjugal é a primeira vez que tem dificuldade em fechar o vestido dela atrás.

- O que foi, Sérgio?

- Calma, Dulce. Preciso me concentrar.

Ele finalmente consegue fechar o vestido.

- Pronto. Dever cumprido.

- O que você tem, Sérgio?

- Por quê?

- Parece distraído. E ainda não terminou de se vestir. Nós vamos chegar tarde no jantar.

Ele senta-se na cama.

- Dulce, eu vou confessar urna coisa.

Dulce olha para o marido com surpresa. Uma confissão? Que confissão? Uma amante? Um problema na firma? Estamos arruinados? O quê?

flor

- O quê, Sérgio?

- Eu nunca entendi o que o Pato Donald dizia.

Dulce controla a vontade de bater no marido.

- Que loucura é essa, Sérgio?

- Passei toda a minha infância fingindo que entendia, mas não entendia. Você entendia?

- Por que isto agora, Sérgio? Você está muito estranho.

- Eu ria mas não entendia. Era um riso falso.

- Sérgio, por amor de Deus. Vamos parar com essa loucura e acabar de nos vestir. Já estamos atrasados e você nem...

- Eu não devia ser o único. Muito mais gente não entendia o Pato Donald. Podíamos até nos reunir. Os que não entendiam o que o Pato Donald dizia. Talvez formar uma associação...

flor

Dulce senta-se na cama ao lado do marido. Sente que o que está em jogo é seu casamento. São 25 anos de vida conjugal ameaçados por aquela súbita loucura do marido. Decide apelar para a razão. Enfrentar a estranheza com uma boa conversa. Nada como uma boa conversa para se encontrar a solução de qualquer coisa, mesmo a insanidade. Ou adiá-la.

- Eu compreendo, Sérgio. E a idade, não é? Você não está sabendo lidar com os 50 anos. Parece que existe até um nome para isso, a depressão do meio-século, alguma coisa assim. Para mim também não foi fácil passar dos 40. Podemos conversar sobre isso depois. Mas no momento o mais importante é não chegar atrasados no jantar. Vamos nos vestir e...

- Eu fico pensando no que o Pato Donald dizia, com aquela sua dicção incompreensível. Em tudo que eu perdi...

Dulce levanta-se, impaciente.

- Ora faça-me um favor, Sérgio! Você não perdeu nada, O que o Pato Donald teria de importante para dizer? Que valesse a pena? Que fosse fazer alguma diferença na sua sida?

- Não sei. Não sei. Quem sabe eu não seria outro homem, hoje, se entendesse o que o Pato Donald dizia?

flor

Durante o jantar, Dulce fica cuidando Sérgio. Vê que ele quase não fala com as pessoas ao seu redor. É o stress, pensa. A crise. A angústia dos 50 anos. Da conversa dele com uma mulher sentada ao seu lado ela só capta uma frase solta, dita pela mulher:

- Sabe que eu também não?

Mas a mulher também o olha com estranheza. E Sérgio retoma ao seu silêncio, com o olhar parado. No carro, voltando para casa, Dulce sugere que Sérgio procure alguém para conversar. Quem sabe o Dr. Mauricio, o amigo psiquiatra? Sérgio concorda, entusiasmado.

- O Dr. Mauricio. Sim, sim. Ele certamente também não entendia o que o Pato Donald dizia. Deve conhecer outras pessoas que não entendiam. Podemos começar a associação!

Dulce suspira. Decide que terá que aprender a conviver com a loucura do marido. Talvez seja passageira e não interfira na vida econômica do casal. Preocupante mesmo, pensa ela, é a inédita dificuldade dele em fechar seu vestido atrás. Aquilo sim poderia afetar a relação.


Domingo, 15 de novembro de 2009.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.